sábado, 6 de março de 2021

Um filme sobre um editor de textos literários

Um Editor de Génios (Genius) passou quinta no canal Hollywood, só descobri hoje, não tem mais emissões, pelo que não podemos gravar mas estará disponível até à próxima quinta. 

Mais do que uma ficção, é uma dramatização baseada em pessoas reais. Pelo menos os primeiros dez minutos (os que vi) são interessantes: ajudam a visualisar aquilo que para quem está de fora ou não gosta de ler é aborrecido

Romancear batalhas é fácil, mas romancear o acto de ler? De corrigir provas? De decidir - a olho, não há ainda uma maneira científica - o que num texto deve ser reescrito, aumentado, reduzido ou simplesmente ficar de fora? 

Obviamente, o filme recorre a estratagemas para não aborrecer o auditório, mas consegue na sequência inicial mostrar o que ainda hoje é editar um texto: lê-lo no comboio, na paragem, depois de jantar, fazer notas, observações ou correcções na cama. 

O editor como um provador de vinhos e comida ao serviço do faraó, ou seja, do leitor - a ver se não está envenenada, se precisa de mais sal, mais água, menos batatas, um pouco mais de apuramento ao fogão. 

É (pode) ser uma apaixonante aventura. Mas passa-se toda na cabeça.  




quinta-feira, 4 de março de 2021

                 


                        Nelson Silva



 

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último

Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.

Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?

(...)

19-6-1914

PESSOA, Fernando, Poesia dos Outros Eus (ed. de Richard Zénith), Assírio & Alvim, Lisboa, 2007



Exercícios 3 & 4

Joana Camões Pereira

 

3. Indique a sua editora/livraria preferida.

A editora

Quem mais preenche as minhas prateleiras é, sem dúvida, a Relógio d'Água por ter um catálogo que se estende para todas as áreas: ficção e não-ficção, autores clássicos e contemporâneos, poesia e narrativa, filosofia e ciência, teatro e ensaio. É uma das melhores editoras para fundar a nossa biblioteca pessoal muitas leituras essenciais estão lá publicadas.

Mas não é só o catálogo que me encanta, também gosto de que disponibilizem o planeamento editorial online. Ainda que não o cumpram rigorosamente, já sei que obras se aproximam do horizonte, quais quero comprar e as que, não conhecendo, passo a conhecer e me despertam interesse. Além disso, nessa mesma página permitem que os leitores deixem sugestões de títulos que querem ver publicados e, embora as minhas propostas (até agora) tenham caído em saco roto, é uma forma de interagir com quem produz e de ver o que outros leitores também querem ver no papel.

 

A livraria

A Almedina do Atrium Saldanha é a minha livraria predilecta para procurar novidades. É um espaço bem organizado e com boas dimensões para cada tema. Nos tempos pré-covid, costumava passar horas lá a folhear livros e livros sempre num agradável silêncio. Foi assim que encontrei uma edição da Fenda dos Cantos de Maldoror (foi a lombada cor de bronze que me chamou a atenção).

Porém, nesta fase em que as livrarias permanecem fechadas e em que muitas editoras publicam menos do que o costume, uma óptima livraria online é a Leituria (que também tem um espaço físico em Arroios). Não só vende livros usados a bons preços como vos envia para casa sem cobrar portes.

  

4. Encontre cinco grandes títulos.

Em boa verdade, não são títulos que precise de procurar. São parte do nosso imaginário colectivo e mesmo quem não leu já ouviu o nome e os seus ecos na cultura pop.

  • A Ilíada, de Homero;
  • Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe;
  • Hamlet, de William Shakespeare;
  • Lolita, de Vladimir Nabokov;
  • 1984, de George Orwell.

Sumário da aula 4 (3/3) - A tradução

 1. Dedicámos uma boa parte da aula à tradução de Carver. Tentámos, pela prática, chegar a algumas conclusões. 

1.1. As traduções têm todas diferenças, e isso é inevitável. A nossa língua permite traduzir qualquer frase de várias maneiras, e a nossa idiossincrasia (o sinátrico my way) faz com que escolhamos umas palavras em vez de outras. Se na tradução técnica o profissional se habitua a usar expressões feitas (com o tempo e o uso, vai sendo criada uma «tradição» nas regras de uso de telemóveis, por exemplo), na tradução de textos mais livres a coisa pia mais fino. 

1.2. Há instrumentos que devemos ter sempre perto - um ou mais dicionários (papel e, se online, sugiro despender algum dinheiro para ter qualidade profissional), acesso a sítios como o Ciberdúvidas (fiável porque ligado a uma instituição), uma boa gramática, um prontuário ortográfico. 

1.3. Outros são-nos pedidos pelo texto concreto. A qualidade exigida é a flexibilidade, a mesma que nos faz procurar várias soluções. Se o autor está vivo, podemos/devemos falar com ele. (Bem, alguns não nos ligam pevide, mas são raros.) Se o autor está morto, talvez haja documentos a consultar. No caso de Carver e Bukovski, há material q.b. no youtube (ver ponto 3, abaixo) . E que tal espreitar as traduções para outras línguas? (Caso: um tradutor tinha um problema com uma palavra que, no original, era banal, mas em português fica complicada: «Choupo-do-Canadá». Acabou por optar pelo que estava na versão francesa, «peuplier», e pôs apenas choupo. Obviamente, se o texto fosse sobre árvores teria de ser rigoroso - mas como era um elemento só numa frase optou, bem, por não cortar o ritmo.) Ter um Dicionário Ambulante - um nativo para nos guiar pela floresta de sentidos - é sempre útil. 

1.3.1. No caso do verso mais controverso e problemático neste poema de Carver, pedi à minha amiga Astri Gosh (tradutora do norueguês para o hindi, e trilingue por nascimento, pois o inglês também é uma língua oficial na Índia, a única que permite comunicação entre as nações do enorme subcontinente) para ver se me ajudava a entender. 

1.3.1.1. E ela saiu com uma solução que não tenho 100% certeza de ser a certa (não há cem-por-centos nesta nossa área) mas me parece plausível e faz sentido: The one I buried, a que enterrei, a que me morreu, a que se me foi, etc. 


 

1.3.1.12. Pude pedir-lhe isto por três razões: a) é minha amiga de há quarenta anos, conhecemo-nos a pintar a jaula do tigre no Zoo de Praga, b) há dias ela pediu-me (e eu aceitei) para dar por Zoom um workshop em Goa sobre escrita para crianças. É uma permuta informal e que, entre gente honesta, não é corrupção nem cunha, é networking, trabalho-em-rede.   

1.3.2. Temos de tentar escutar quem fala. Hoje há um desagradável hábito de entrar na casa alheia com botas enlameadas. Sempre houve ignorantes, mas hoje sentem-se mais seguros. Um engenheiro diz, petulante, que «Saramago não sabe escrever» - em contrapartida, eu não me atrevo a dizer que Einstein é um idiota. As artes sempre tiveram as portas abertas, mas a petulância imberbe e bárbara de quem acha que o seu gosto é a verdade leva a desaires como os da invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro ou de Alcochete há três anos - em comum, todos estavam certos de ter razão. O lado mau de uma coisa boa como as classificações por qualquer leitor em sítios como o GoodReads leva a que a pontuação de Camões baixe porque um moço de catorze anos acha aquilo «uma seca». Ora o gosto também se trabalha. Mas é e dá trabalho. Não temos todos de ter o mesmo gosto, mas o princípio de entrar no texto com um instrumento chamado disponibilidade intelectual é uma das ferramentas mais necessárias. E é mesmo uma ferramenta: muitas das ferramentas para trabalhar nesta área estão na nossa cabeça. E, se quiserem, também no nosso coração e no estômago. 

1.3.3. Este poema é relativamente fácil de entender, porque é uma pessoa com voz distinta a falar, mas tem uma pequena dificuldade: como os bêbedos ou os rabugentos, ele vai mudando de tom, de estado de espírito. Não está a seguir uma linha direita e monótona, está a gabar-se, a ralhar, a prometer, a dar lições, a avisar, a ficar triste, soturno, melancólico, a ficar de novo vivaz. Daí, termos puxado como exemplo o FMI de José Mário Branco. 

1.4. Traduzir é ler, é editar, é pensar. Que alternativas posso ter ao traduzir Pet Shop Boys? Devo ser fiel ao conteúdo (a «rapariga megera» do Nelson) ou devo ser fiel à forma (a «mina» do Daniel)?  E Bukovski está a falar com vocè, tu, vós ou vocês? Homens ou mulheres? Pela linguagem, cheira-me que os interlocutores nesta ficção sejam sobretudo homens. E, lendo o poema, confirmamos que «vocês», com a conotação vagamente truculenta em Portugal em vez da conotação chique de Cascais ou trivial no Brasil, parece-me a boa decisão. Porque boas decisões temos de tomar. O facto de ser discutível não deve ser impedimento a que, com os constrangimentos de prazos e dinheiro, tentemos a perfeição. Por isso, recentemente, o editor Francisco Vale, da Relógio d'Água, deu os livros da Nobel 2020 Louise Glück a traduzir por tradutoras/poetas respeitadas. Aliás, têm o nome na capa, sinal de prestígio mas também de responsabilização.    

1.5. E estamos em permanente formação. O episódio caseiro contado no fim da aula, com Ossip Mandelstam, que primeiro confundi com Stig Dagerman e depois fui verificar e me lembrei que há muito tinha lido um ou outro poema, e aproveitei para (usando o telemóvel na cama) ir buscar poemas na net, e depois no Kindle e, por ser barato, descarregar um que até tem uma epígrafe de Brodsky (prémio Nobel 1987) a falar dos quatro pilares da poesia russa no século XX, correspondentes aos quatro humores, é exemplo da disponibilidade e humildade e curiosidade que tento ter e que exige treino até se tornar natural mas que, acho, creio, suponho, nos melhora a qualidade de vida. Amén. 



2. Exercícios

2.1. Um exercício simples mas útil que alguns já conhecem. Pontue o seguinte trecho: 

«(…) na América surgiu logo a polémica pode rir-se com isto mas claro que sim deve-se até é a atitude cívica mais apropriada o complemento da resposta política e militar que os países devem ter para arrasar o Estado Islâmico lá onde falham as armas dos exércitos e as ideias dos políticos ao menos que ataquem os humoristas»

2.2. Sugestóes para a próxima aula: 

2.2.1. Gravar a leitura de um poema que vos seja querido

2.2.2. Fazer, com as regras indicadas (não são obrigatórias, mas ajudam a formatar) um conto infantil - já com os esboços dos desenhos, se possível. Ajudam o profissional que for ilustrar a entender melhor o que querem. Podem fazer em esboço ou ser mais ambiciosos. 


3. As ligaçóes desta aula

A ligação ao Livro de Estilo do Público. 

A que pensei ter dado para a conferência de hoje sobre o Papel e o Digital (será mais tarde posta online). E hoje (quinta 4) já há um resumo disponível, o que é notável.

Charles Bukowski. Aqui

José Mário Branco, FMI. 

Inglorious Bestards. Aqui


4. Do sucesso (nano-ensaio)

 Há um admirável mundo novo por aí. Não é o meu, será talvez o de alguns de vós. Há muitos anos, salvo erro em 1998, sentei-me em Frankfurt à mesa - num jantar para o qual fui convidadopor uma amiga - ao lado de uma jovem checa que ganhara um prémio (uma ida à Feira de Frankfurt, precisamente) para jovens promissores no mundo da edição. Perguntei-lhe o que queria fazer e ela respondeu, contente: «Quero editar livros de gastronomia.» Fiquei abalado, porque naquele tempo eu pensava que a área mais nobre da edição era a literatura. E surpreendeu-me que alguém tão jovem fosse já tão pragmático e claramente sobrepusesse os Altos Valores Espirituais à ambição clara de ganhar dinheiro

Eu estava errado, ela estava certa. Nos anos seguintes, os livros de gastronomia disparariam, ao ponto de na montra de uma livraria de Hong Kong (estou a pavonear as penas, eu sei, ó pra mim tão viajado) só encontrar livros de gastronomia, quase todos de anglo-saxónicos. Sempre achei graça a Jamie Oliver ensinando os italianos a comerem pizza - vá lá, ainda não nos ensinou a comer jaquinzinhos, mas lá chegará um Chef Ramsay, um Anthony Bourdain, uma Nigella qualquer que o faça. 

(Curiosamente, este último parágrafo relaciona-se com a lição de Teoria em que Tony Montana explica ao amigo as regras da relação entre economia, poder e cultura.) 

O século XXI mudou as regras no mundo editorial, confirmando definitivamente (até ver) a língua inglesa como central e as outras todas como anãs periféricas, independentemente do número de falantes - podemos ver a analogia com o facto de - wikipediem, que não faz parte da matéria - as mulheres serem metade da humanidade mas, ainda hoje, vistas como minority

Tropecei nestes rapazes que passam para vídeo «o essencial» de livros que levariam um pedaço a ler. Para mim, é mais um passo no avanço dos bárbaros: a ascensão dos iletrados ao poder, e o dinheiro como medida única de «sucesso». Nos jornais e restantes media, vi esta mudança quando as notícias deixaram de ser sobre o prestígio do prémio e passaram a ser sobre a quantia. Isso fez com que a forma de um prémio ganhar nome passasse a ser estupidamente simples: basta o valor do prémio ser alto para logo lhe atribuirem valor.     

A mim arrepia um pouco. 


terça-feira, 2 de março de 2021

Estratégias para Difundir um Livro

 O marketing é, para mim, um mistério. Sei que existem estratégias e que cada empresa investe numa equipa específica para que certos produtos sejam verdadeiros sucessos, mas nada garante que tal aconteça. Por outro lado, há coisas que se tornam virais e vendem por si só e não têm uma grande estratégia definida. Tendo isso em conta, acho importante perceber o que temos em mãos. Quem é o autor do livro? Qual é o género? Quem é o público alvo? Creio que o marketing está dependente das respostas que temos a estas perguntas. 

Para um público mais adulto, penso que resultaria a divulgação em livrarias e em feiras do livro. Cartazes ou imagens em locais que, podendo ou não ser relacionados com o mundo literário, fossem de presença regular do público. Seria também boa ideia ponderar a publicidade em meios de comunicação social (embora seja cara, chega a um grande número de pessoas). E claro, as redes sociais. Tanto para um público adulto como para um público mais jovem, as redes sociais tornaram-se meios de divulgação bastante importantes. Não sou a maior admiradora da estratégia mas realmente, pode resultar, quando uma figura pública promove qualquer tipo de produto de uma forma indirecta. Por exemplo, se em várias histórias do Instagram, enquanto falam de um assunto aleatório, o livro aparecer ali sempre ao lado de uma forma despreocupada como se fosse ao acaso, é provável que os seus seguidores, inconscientemente, tenham a curiosidade de pesquisar. Outra ferramenta é o youtube, mais precisamente: os booktubers. Ainda são escassos em Portugal mas nos Estados Unidos e no Brasil têm uma base sólida de seguidores e são eficazes a promover livros e a motivar o seu público a comprá-los. Fazem-no através da comparação com livros já populares ou até mesmo através da crítica individual do manuscrito ainda por editar, que lhes é enviado pelas próprias editoras. 

A adaptação dos livros para filme também ajuda. No meu caso, comprei o Duna de Frank Hebbert porque entretanto o filme vai estrear e queria ler o livro antecipadamente. O contrário também acontece: vemos um filme e depois temos curiosidade de ler o livro porque na maioria das vezes tem mais detalhes e informação. 

Seja de que maneira for, penso que se deva criar uma certa expectativa e necessidade no leitor. Deve fazer-se acreditar que aquele não seria só mais um livro mas sim, algo que valha a pena ler. 

Como mostrar o livro às pessoas?

 Raquel Paixão

Para os autores, seus agentes e editoras, o marketing de um livro exige uma série de estratégias que permitam atrair possíveis leitores. É importante ter uma noção do público-alvo do livro que se vai promover e do tipo de perfil que estes leitores têm; ao saber os interesses, gostos e tendências favoritas dos leitores a quem o livro se destina, maior a probabilidade de o livro ser bem recebido.

Com um público-alvo em mente e a obra escrita, um autor pode alcançar uma comunidade de leitores e fornecer uma cópia avançada do livro. Os leitores (muitos dos quais têm milhares de seguidores nos seus blogs) publicam uma crítica sobre o livro e incitam burburinho sobre ele nas suas redes sociais e, consequentemente, o livro acaba por alcançar um maior número de leitores.

De igual importância é dar a conhecer o autor do livro e compartilhar mais detalhes sobre si e sobre a sua obra. Penso que, atualmente, a maneira mais acessível e eficaz de o fazer é através das redes sociais. Criar um blogue, um site, uma página no Instagram, no Facebook ou até mesmo no Twitter permite que se estabeleça uma ligação com outros autores e leitores, ampliando a rede de leitores e seguidores do autor e, naturalmente, das suas obras. Além de entrevistas e comunicados de imprensa, os leitores são também quem faz grande parte da promoção de um livro, nomeadamente em plataformas online.

Exercício de Tradução

Aqui está a minha proposta de tradução para o poema.


Não sabes o que é o amor

(uma noite com Charles Bukowski)


Não sabes o que é o amor, disse Bukowski

Tenho 51 anos, olha para mim

Estou apaixonado por esta miúda 

Ficámos apegados um ao outro

Portanto está tudo certo, é assim que deve ser

Entro-lhes no sangue e elas não me conseguem largar

Tentam de tudo para fugir de mim

mas, no final, todas voltam

Todas elas voltaram para mim, exceto

a que eu plantei

(...)


Esta última parte não me soa nada bem mas ainda não consegui arranjar uma solução melhor. Amanhã ficarei mais esclarecida certamente. 

Guia de sinais de revisão

Mesmo com o semestre já findado, deixo aqui  este guia bastante completo dos sinais usados na revisão de texto. O  site  Revisão para quê t...